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Pequim pretende reabilitar a imagem do made in China
A Comissão Européia revelou, na terça-feira (10/07), que a Espanha havia decidido retirar do mercado duas marcas de pastas de dentes produzidas na China, Spearmint e Trileaf Spearmint. A decisão foi tomada porque foram detectados nesses produtos sinais da presença de dietileno glicol (DEG), uma substância habitualmente utilizada na composição do antigel de motor (produto que abaixa o ponto de congelamento da água).
No início do ano, os consumidores americanos descobriram que um preparado alimentício para gatos importado da China podia matar prematuramente esses animais domésticos. Um pouco mais tarde, as autoridades sanitárias panamenhas e as da República Dominicana assinalaram a presença de DEG num xarope contra a tosse chinês, o qual teria provocado a morte de 83 pessoas.
Na China, as falhas em matéria de segurança alimentar e sanitária, ou seja, as que são mais suscetíveis de causar danos na vida das pessoas alcançaram um limite crítico: a execução, na terça-feira (10/07), de Zheng Xiaoyu, o ex-diretor da Agência para a Segurança Alimentar e de Medicamentos, condenado à morte por ter recebido propinas pagas por laboratórios farmacêuticos interessados em obter a aprovação de produtos que se revelaram não conformes, tem como objetivo de transmitir uma mensagem contundente, tanto na China como no exterior.
"Nós precisamos tirar as lições desses casos de violação da lei, e intensificar os nossos esforços para obtermos todas as garantias de que os alimentos e os medicamentos são seguros", declarou nesta quarta-feira Yan Jiangying, a porta-voz da agência da qual Zheng Xiaoyu havia sido o primeiro diretor.
Um outro oficial, por sua vez, manifestou suas preocupações, em entrevistas na imprensa, em relação aos "riscos de instabilidade social" provocados por esta crise de confiança. Todo dia, novas revelações são publicadas com destaque nas páginas dos jornais. Dias atrás, o "Jinghua Shibao", um diário pequinês conhecido pelos seus "furos" jornalísticos, descreveu de que maneira o conteúdo de metade dos garrafões de água destilada vendidos em Pequim por quatro marcas, entre as quais a Nestlé, estaria sendo alterado em determinadas etapas da sua comercialização. A revelação foi possível depois da descoberta de que certos garrafões continham água da torneira ou ainda um coquetel de diversas águas de marcas menos caras.
O canal central de televisão, por sua vez, acaba de exibir uma reportagem a respeito do desmantelamento de um tráfico de falsos frascos de albumina vendidos para hospitais. Na região do Guangxi, uma enquete revelou que 40% das bebidas e dos lanches para crianças vendidos no comércio contêm aditivos e agentes conservantes em quantidades excessivas. Neles podem ser encontradas substâncias como a tintura, a parafina, ou ainda formaldeídos (derivados do formol).
A agência China Nova comemorou recentemente o fato de uma investigação da Administração para a inspeção, a quarentena e o controle da qualidade (Quality Supervision, Inspection and Quarantine) relativa a mais de 7.000 produtos de uso corrente fabricados na China e destinados ao consumo interior, ter concluído que mais de 80% dentre eles estavam em conformidade com as normas. Contudo, quando analisadas do avesso, as estatísticas mostram que um quinto desses produtos apresentam eventualmente riscos. Para os produtos fabricados por pequenas e médias empresas, a taxa é até mesmo de 27%, ou seja, mais de um quarto.
Brinquedos com sinais de chumbo
Ora, 75% dos cerca de um milhão de fabricantes recenseados na indústria alimentícia são de fato entidades muito pequenas. Por volta de 23.000 casos de produtos alimentícios não conformes foram descobertos no decorrer dos cinco primeiros meses deste ano, enquanto 180 oficinas, na maioria das quais trabalhavam menos de dez pessoas, foram fechadas pelas autoridades.
Um sistema de supervisão dividido em muitas partes disseminadas - no total, seis agências compartilham entre elas as tarefas nos setores da saúde, da agricultura e do comércio -, uma carência crônica de profissionais, além de sanções geralmente inadequadas tornam muito aleatório o controle desta indústria pulverizada, que opera em muitos casos no curto prazo, movida por uma vontade de enriquecimento rápido.
"A carência de uma partilha clara das linhas de responsabilidade conduz a uma situação em que nenhuma agência e nenhuma autoridade pode ser tida como responsável pelas suas ações ou pela sua inação". Este comentário está incluído num relatório publicado recentemente pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em parceria com a agência chinesa de segurança alimentar.
Além disso, um fato mais grave ainda está ocorrendo: até então limitada apenas às marcas chinesas, a suspeição dos ocidentais começou a levar em conta também os produtos fabricados na China. Em meados de junho, nos Estados Unidos, mais de 1 milhão de trenzinhos de madeira da marca Thomas & Friends, fabricados na China, foram objetos de convocações ("recall") por parte do seu importador americano, uma vez que a pintura que os cobre continha chumbo, apesar das especificações que haviam sido impostas ao fabricante. Trata-se de um duro golpe para essas mercadorias de marca ocidental "made in China" que todo mundo considerava, entretanto, imunes ao mal chinês.
"Quem é responsável pela qualidade dos produtos é o importador. É ele, ou o seu representante no local, que deve efetuar no plano interno, ou por intermédio de uma agência de certificação estrangeira, os controles de qualidade", explica, em Xangai, a responsável de uma central de compras no setor do vestuário e da moda.
Mas o sistema também apresenta outras falhas: os custos reduzidos e a produção de massa favorecem a carência de controles, provocam o surgimento de uma multidão de empresas terceirizadas, comprimem as margens e induzem as usinas a nunca recusarem encomendas por parte das multinacionais.
Números
CRESCIMENTO:
A taxa de crescimento do produto interno bruto (PIB) chinês para 2006 foi revista para cima, sendo definida em 11,1%, contra 10,7% estimados anteriormente, anunciou, na quarta-feira (11/07), o Bureau Nacional das Estatísticas. O PIB alcançou o montante de 21.087,1 bilhões de yuans em 2006 (R$ 5.262,24 trilhões).
RESERVAS DE CÂMBIO:
Alimentadas pelo forte excedente comercial, as reservas de câmbio alcançaram o montante de US$ 1.332,6 trilhão no final de junho (R$ 2.517,55 trilhões), o que corresponde a um aumento de 41,6% no processo de evolução anual, segundo os números publicados nesta quarta-feira pelo Banco Central chinês.
EXCEDENTE COMERCIAL:
O excedente de US$ 177,47 bilhões (R$ 335,28 bilhões) em 2006 corresponde a um aumento de 74% em relação a 2005.