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“Socialismo Absolutista Bolivariano”
 
Em recente viagem de negócios à Venezuela, acompanhei as notícias da “1ª Cumbre Energética Suramericana” que reuniu vários chefes de estado, na capital Caracas. Na ocasião, pude entrar em meandros políticos, sócio-culturais, econômicos e gostaria de fazer alguns relatos e considerações. Começo pela política já que a Venezuela possui o mais polêmico governante dos últimos tempos depois da ‘era Fidel’: o ex-militar e agora ultra-socialista Hugo Chávez.

Visitei a cidade de Barinas, cidade natal do atual presidente, capital do estado de Barinas que é governado pelo Maestro Chaves, pai do que eles chamam “primeiro mandatário” da Venezuela. A Venezuela têm iniciado uma expansão realmente Socialista. Os Centros Bolivarianos são centros comunais, onde grupos, normalmente partidários do presidente, se reúnem em associações como as existentes na antiga União Soviética. A dificuldade é controlar e a fiscalizar o dinheiro público, pois, essas comunas são responsáveis por muitas ações do Governo Central, e recebem, sem qualquer tipo de acompanhamento, recursos para o desenvolvimento de determinadas regiões.

Pude visitar em Barinas uma construção que deveria ser de uma rodoviária. O Governo Central escolheu um grupo comunal para fazer a obra, receberam o dinheiro, escolheram um local, iniciaram as obras e depois de terem erguido paredes, teto, e pré-formatado toda a estrutura do empreendimento, chegaram à conclusão de que aquele local não era apropriado para comportar uma rodoviária. A obra parou e o dinheiro sumiu. Mesmo que no Brasil tenhamos casos parecidos com este, nosso país, nesse ponto segue alguns anos à frente. Pude concluir que o critério para destinação do dinheiro é pessoal e político-partidário, ou melhor, “comunal”, não técnico, o que fere o estado democrático de direito.

Outro aspecto a ressaltar é a maneira impressionante com que Chávez conduz seus discursos. Lula, Roberto Jéferson, Collor e Maluf poderiam ser seus aprendizes, tamanha a capacidade de comunicação com a massa. Nada contra essa habilidade, mas pude evidenciar através de uma televisão estatal, um discurso de Chávez para 16 mil simpatizantes do PSUV – Partido Socialista Unificado Venezuelano, o chamado “Encuentro de Propulsores”. Nele, a política foi disseminada como doutrina quase religiosa e fielmente seguida por seus correligionários. Lembrei-me de Hitler, que conseguiu convencer o povo alemão a cometer atrocidades e crimes contra a humanidade com um discurso semelhante.

Na Venezuela, os camaradas do “Encontro de Propulsores” saíram com a missão de arregimentar mais cinco membros, cada, e trazê-los para o âmago do partido. Ao final, Chávez finaliza com o grito: “Pátria, socialismo ou morte”, sendo seguido por milhares de braços esquerdos veementemente erguidos. Neste exato momento, não fossem as camisas vermelhas e a diferença ideológica dos presentes, poderia dizer que estava na Alemanha pré-segunda guerra. Conversei com pessoas pró e anti-Chávez, e me chamou atenção o receio da população em lutar contra o sistema de autoritarismo crescente.

Uma polêmica que presenciei, foi a decisão de Chávez de não renovar a concessão da Rádio Caracas de Televisão a mais antiga rede de comunicação privada da Venezuela. Tal medida foi motivada, segundo o governo, porque a emissora possuiria uma péssima programação passando somente novelas em horários impróprios, e divulgava apenas notícias “ruins”. No entanto, todos na Venezuela sabem que a Rádio Caracas de Televisão faz oposição a Chaves, divulgando casos de corrupção no governo e foi uma das instituições que apoiou a greve das petroleiras em 2002. O que mais assusta é que o povo, normalmente menos esclarecido e que apóia Chávez, não dimensiona a gravidade dessa decisão.

A propósito dessa ampliação de poder, Chávez assumiu o governo através de um golpe militar, e hoje luta com os poderes do estado para minar a oposição. Um contra-senso perigoso. Após 2002 assumiu o controle do petróleo na Venezuela nacionalizando a PDVSA, empresa petrolífera venezuelana. Cabe lembrar que o petróleo é o maior patrimônio venezuelano hoje, e a principal fonte de receita. No entanto, a litro de gasolina na Venezuela equivale a menos de um centavo de real. Estão jogando fora um recurso natural cobiçado sob pretexto de servir ao povo.

Além disso, Chávez comprou a Movilstar que controla o fornecimento da telefonia fixa e acesso a internet numa clara intenção de ampliar seu controle sobre os veículos de comunicação e transmissão de dados daquele país. Tem divulgado, após ter recebido amplo poder do parlamento venezuelano, que pretende substituir o poder familiar pelo poder do estado para os jovens entre 15 e 18 anos, o que o permitirá doutriná-los sob o prisma de seu “Socialismo Bolivariano”.

O que mais me preocupa, como brasileiro, é ver que existe “afinidade” entre o governo venezuelano e o governo brasileiro. Até a blindagem política usada no Brasil é a mesma na Venezuela. Todos os “Chavistas” com quem conversei estão convencidos de que há corrupção no governo, mas acreditam na inocência do primeiro mandatário da nação.

*Rodrigo Faleiros Professor universitário, advogado do escritório Bizerra & Advogados Associados e diretor de marketing e negócios da Brazcommerce International Business. É professor universitário e membro do Núcleo de Comércio Exterior do CIESP/Ribeirão Preto.
 
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