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Carros: uma paixão nacional (na China)
 
Em alguns países, a possibilidade de se comprar um automóvel é tão grande ou provável quanto comprar uma casa. Vale dizer que, em países ricos, muitas famílias estão comprando o terceiro carro, ou seja, já tem veículo para a esposa, para o marido, e podem se dar ao luxo de adquirir um automóvel de lazer como um esportivo, por exemplo. O mesmo pode ser dito das moradias dessas famílias que hoje movimentam uma outra onda de desenvolvimento na construção civil com reformas, construção de piscinas e áreas de lazer.

Essa é uma realidade nos países ricos e não nos que estão em desenvolvimento. Em países onde a compra de uma casa própria pode ser um sonho distante, a aquisição de um veículo passa a ser grande conquista. E mesmo com toda a carência financeira para se adquirir um automóvel, o brasileiro conseguiu desenvolver o que chamamos de paixão pelo carro, principalmente, aquele que é conquistado com muito suor.

A propriedade de um automóvel é sinal de progresso individual, reservado a minoria da população brasileira. Essa conquista pode significar uma mudança de vida consistente. Pode ajudar a conseguir um emprego melhor, entre outras coisas. As agências de propaganda perceberam essa paixão dos brasileiros e passaram a usar esse sentimento para vender produtos e serviços automotivos. De fato, durante muitos anos os veículos serviram como forma de poupança familiar, pois era comum (devido à ilusão da inflação) uma família comprar um carro para revendê-lo por valor maior.

Essa minha percepção do amor do brasileiro por carros ficou de certa forma balançada quando testemunhei a verdadeira ebulição causada pela última feira de automóveis realizada em Xangai, na China. Até fiquei um pouco enciumado com a reação dos chineses em relação aos carros expostos no evento. Cheguei a relembrar de quando adquiri o meu primeiro automóvel. Isso de fato está ocorrendo na China, porém, em proporções assustadoras já que o primeiro carro de um chinês pode significar que milhões de carros serão vendidos aos chineses que irão comprar seu primeiro automóvel.

Como tudo na China é colossal, as vendas de veículos crescem em torno de 30%, ao ano, e eles já comercializam seis vezes mais automóveis do que nós, e o pior, os chineses começam a demonstrar efetiva paixão por carros nacionais ou importados. Presenciei uma conversa entre três jovens chinesas sobre a aquisição do primeiro veículo que todas iriam comprar. Isso mesmo, todas. E o fato é que milhares, talvez milhões de jovens chineses, estão diante dessa possibilidade e com o mesmo sonho. A maioria irá comprar o carro à vista, sem financiamento, pois, assim como os pais, desenvolveram o hábito de poupar.

Esse fenômeno já ocorreu quando a maioria dos chineses trocou as velhas bicicletas por motocicletas. Na verdade, motos de baixa cilindrada, elétricas e até bicicletas com motores. Mais rápidos e mais poluentes que as famosas “magrelas”. Essa identidade chinesa com a bicicleta alimenta um mercado impressionante que vem sendo rapidamente substituído pelo sonho do carro novo. As empresas multinacionais do setor já perceberam essa tendência e instalaram fábricas locais em parceria com empresas chinesas. Temos notícias de inúmeras novas indústrias inauguradas já em 2.007, e que elevarão a produção de automóveis na China para impressionantes 8 milhões de veículos até 2.008.

Esse número coloca a China entre os principais mercados mundiais de automóveis e, pelo jeito, isso é só o começo. Mas será que haverá espaço para tantos veículos naquele país? Refiro-me ao espaço físico de ruas, estradas e estacionamentos. Acredito que a as cidades chinesas não comportarão essa explosão e isso já pode ser notado em grandes centros urbanos como Pequim e Xangai. Resta saber por quanto tempo os automóveis poderão ser vendidos livremente na China, pois, se todos os chineses puderem comprar seu próprio carro, teremos que imaginar cidades com pelo menos três andares de ruas. Imaginem quando os chineses resolverem comprar o terceiro carro da família!

*Dr. Paulo Humberto Fernandes Bizerra Advogado especialista em Direito Tributário e Direito Internacional. É membro da Academia Brasileira de Direito Tributário, diretor do escritório Bizerra & Advogados Associados e da BrazCommerce International Business, que mantém escritórios em Lisboa (Portugal), além de Pequim e Xangai, na China.
 
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